PF prende 10 acusados de tráfico de mulheres e fraudes em empréstimos do BNDES

24/04/2008 - 20h45

Elaine Patricia Cruz
Repórter da Agência Brasil
São Paulo - A Polícia Federal em São Paulo prendeu hoje (24) dez pessoas acusadas de praticar crimes de tráfico de mulheres e de fraudes em concessão de empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Uma pessoa ainda está foragida. Entre os presos, segundo confirmou a PF, estariam Ricardo Tosto, advogado do ex-prefeito Paulo Maluf e representante da Força Sindical no Conselho do BNDES, empresários e servidores públicos. As investigações começaram em dezembro passado, para apurar denúncias sobre tráfico internacional de drogas. E levaram a PF a apurar outras, de prática de crimes de tráfico interno e internacional de mulheres e exploração de prostituição. Foi descoberta uma casa de prostituição na Rua Peixoto Gomide, no centro da capital, que segundo a PF se manteve em funcionamento porque os proprietários ofereciam, de forma contínua, vantagens ilícitas a autoridades e servidores públicos responsáveis pela fiscalização.Nesta investigação, a PF descobriu esquema de desvio de verbas de financiamentos concedidos pelo BNDES, dois deles para uma prefeitura do litoral e para uma grande loja de varejo, segundo o delegado Rodrigo Levin, responsável pela operação que recebeu o nome de Santa Teresa. Ainda está sob investigação a participação de outras prefeituras e de outras empresas no esquema.“Alguns dos investigados usam de sua influência política para conseguir liberação de empréstimos do BNDES. Parte desse dinheiro não vem sendo utilizado no fim específico determinado, ou seja, nas obras”, explicou Levin.O empréstimo parcelado concedido pelo BNDES à prefeitura era de cerca de R$ 130 milhões e, para a rede varejista, de R$ 220 milhões. Cerca de 4% dos valores de cada financiamento eram desviados. O delegado Ricardo Saadi, da Delegacia de Combate a Crimes Financeiros, informou que a casa de prostituição era utilizada para lavagem de dinheiro do desvio de verbas do BNDES. “As empresas que queriam o financiamento procuravam um grupo que tinha alguma influência  na liberação de verbas. Este grupo indicava uma empresa de consultoria para fazer um projeto falso, que deveria ser apresentado ao BNDES. Com o crédito da instituição, depois de aprovado o projeto, a empresa pagava o projeto e parte do valor era repassado para os lobistas, com influência política para conseguir as verbas”, explicou. De acordo com Levin, um dos donos da casa de prostituição é também dono de uma construtora, que fazia obras para prefeituras, “talvez sem licitação”. Essa construtora, disse, "também participa dos desvios do BNDES”. Os acusados, que estão em prisão temporária por cinco dias, serão investigados por desvio de verbas, fraude a licitações, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, manutenção de casas de prostituição, tráfico de mulheres e corrupção. As penas somadas podem chegar a 20 anos.Em nota, o BNDES informou ter tomado conhecimento da operação e que se colocará “à disposição da PF para colaborar com as investigações”. Também afirmou que espera a divulgação da PF para “providenciar a suspensão imediata dos desembolsos dos financiamentos que estiverem sob investigação, bem como adotar medidas legais que possam ser necessárias”.Já o escritório de advocacia Leite, Tosto e Barros disse, em nota, “repelir vigorosamente a acusação produzida contra um de seus sócios, o advogado Ricardo Tosto”. A nota acrescenta que “não há o mais remoto fundamento nas imputações feitas” e explica que “as operações em que uma empresa e uma prefeitura teriam supostamente sido beneficiadas por empréstimos do BNDES  aconteceram antes de o advogado Ricardo Tosto integrar o conselho do banco, não tendo, nem remotamente, a sua participação”.Tosto, segundo a nota, não conhece os beneficiários dessas operações com o BNDES e chamou de “aberração” a associação com prostituição e tráfico internacional de mulheres. “É de se esclarecer ainda que conselheiros do BNDES não têm qualquer função executiva na instituição. Seu papel é consultivo. Sua função é a de debater a política institucional da agência de financiamentos”, afirma a nota.