Passeata em São Paulo homenageia mortos e desaparecidos dos crimes de maio de 2006

12/05/2011 - 23h03

Elaine Patricia Cruz
Repórter da Agência Brasil

São Paulo - Cerca de 100 familiares participaram, na noite de hoje (12), de uma passeata no centro de São Paulo em homenagem aos mortos e desaparecidos dos ataques de maio de 2006, atribuídos a confrontos entre integrantes da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) e policiais.

Segurando fotos dos filhos, as Mães de Maio, como são conhecidas, percorreram as ruas gritando palavras como “Polícia Assassina” e “Queremos Justiça” e foram escoltadas pela Polícia Militar, órgão que acusam de ser responsável pela maior parte das mortes ocorridas durante os ataques.

As manifestantes lançaram hoje (12), na sede do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, o livro Do Luto à Luta, com depoimentos de parentes das vítimas e poesias e textos de vários artistas moradores das periferias das cidades paulistas.

“Produzimos este livro para dar voz a quem não tem”, disse Débora Silva, mãe de uma das vítimas e uma das fundadoras do grupo. Segundo ela, o livro pretende denunciar “a prática abusiva de repressão da polícia, já que a política de segurança pública do país é o extermínio”.

Um dos relatos presentes no livro é o de Vera Lúcia Andrade de Freitas, mãe de Mateus Andrade de Freitas, de 21 anos, que morreu no dia 17 de maio de 2006, em Santos (SP). Segundo ela, Mateus, que não tinha passagem pela polícia e nenhum envolvimento com crime, tinha ido à escola nesse dia com o amigo Ricardo Porto Noronha, mas nenhum deles sabia que a escola estava sob um toque de recolher e havia suspendido as aulas. Quando soube que não haveria aula, retornou para casa e, em seguida, foi a uma pizzaria para encontrar o amigo. Lá, os dois foram mortos por pessoas encapuzadas.

O ouvidor da polícia, Luiz Gonzaga Dantas, apresentou hoje (12) um balanço sobre os casos denunciados ao órgão sobre os crimes entre os dias 12 e 21 de maio de 2006. Segundo ele, ocorreram 54 casos de autoria desconhecida, com 89 vítimas. Desse total, 38 casos foram arquivados sem identificação da autoria do crime. Doze deles continuam em andamento. Com relação aos casos de resistência seguida de morte, foram denunciadas 48 ocorrências, com 79 vítimas. Desse total, 37 foram arquivados, nove estão em andamento e, em dois casos, quatro policiais militares e um civil foram denunciados, e estão aguardando recurso.

“Segundo dados que a ouvidoria tem, [os criminosos] eram pessoas que apareciam com botas de polícia, camiseta preta, ninjas. Normalmente, o que ocorria era o seguinte: passava um carro da polícia, devagar, para fazer o reconhecimento. Dez minutos depois, vinham motos e carros com ninjas atirando, matando as pessoas. Eles recolhiam as cápsulas e iam embora. Segundo as denúncias, havia características de policiais”, descreveu o ouvidor.

“Uma das propostas que estamos fazendo à Secretaria de Segurança Pública (do Estado) é que seja proibido o socorro por policiais às pessoas feridas quando estão em confronto com a polícia. A ouvidoria acredita que, adotando esse procedimento, a letalidade vai diminuir porque os policiais vão temer, no momento em que eles estão alterando a cena do crime, serem responsabilizados”, disse Dantas.

Já o movimento Mães de Maio pretende fazer uma campanha contra a tipificação existente em inquéritos policiais do termo resistência seguida de morte. “Em São Paulo há resistência seguida de morte, que é uma prática abusiva. A resistência seguida de morte é uma farsa, uma bandeira para matar”, disse Débora.

Outra campanha é o pedido de federalização da investigação dos crimes. Caso isso não ocorra, as mães pretendem acionar a Organização dos Estados Americanos (OEA). “Se o Estado brasileiro negar a federalização, vamos denunciá-lo”, afirmou Débora.

Segundo o ouvidor da polícia, no ano passado houve 495 mortes provocadas por policiais de São Paulo sob a tipificação “resistência seguida de morte”.
 

 

Edição: Rivadavia Severo