Mídia carece de equilíbrio e críticas a Metas do Milênio são desculpa para nada fazer, diz Tubino

16/10/2005 - 13h27

Érica Santana, Juliana Andrade e Spensy Pimentel
Repórteres da Agência Brasil

Brasília - Leia a seguir a segunda parte da entrevista à Agência Brasil do representante da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) no Brasil, José Tubino. Nessa parte da entrevista, Tubino fala sobre a contradição entre as críticas da mídia nacional e o reconhecimento internacional dos programas de segurança alimentar e combate à fome desenvolvidos pelo governo brasileiro.

Agência Brasil: Enquanto, no Brasil, muitas vezes, a mídia e setores de classe média ridicularizam programas como o Fome Zero, percebe-se ao mesmo tempo vários sinais de reconhecimento internacional desses programas sociais. Nesta segunda-feira, por exemplo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe em Roma a Medalha Agrícola, da FAO. Afinal, por que o Fome Zero chama a atenção da comunidade internacional? Como o sr. percebe esse descompasso entre a repercussão internacional e parte da opinião pública brasileira?

José Tubino: O trabalho da mídia é ser imparcial: sair e observar diretamente o que está acontecendo nas comunidades e com as populações, e não somente enfocar notícias negativas. A mídia está carregada de negativismo. Não apenas aqui no Brasil, mas no mundo inteiro. A mídia tem que ser um pouco mais equilibrada e também descobrir onde estão as coisas boas.

Nós, como Nações Unidas, temos uma perspectiva internacional global, e o que nós vemos no Brasil é, primeiro, um compromisso político, que é fundamental. É um compromisso político com programas que já estão sendo executados. O Bolsa Família é um programa que já foi reconhecido pelo Banco Mundial como um programa modelo.

A FAO considera que o Fome Zero é um conjunto de programas que precisa acelerar a velocidade para chegar ao mesmo compasso do Bolsa Família, que é um programa complicado, mas que não tem a mesma complexidade de um programa de desenvolvimento que pode gerar empregos, educar a população, possibilitar o acesso de pequenos produtores ao mercado, educação alimentar e nutricional.

ABr: Como esses programas se destacam no atual panorama internacional?

José Tubino: A ONU está torcendo pela cooperação e solidariedade. É isso é o que mais falta no mundo de hoje. Atualmente, o mundo está mais orientado à competitividade. Uma competitividade boa, mas para aqueles que têm capacidade de ganhar.

E o que acontece às pessoas que não têm capacidade de concorrer? Cada vez se vê mais dificuldade para gerar renda, particularmente para os jovens. Por um lado, há mais população e, por outro, menos emprego. As Nações Unidas estão invocando a fazer um maior esforço pela cooperação e a solidariedade entre as sociedades.

Estamos falando de solidariedade internacional. Os países ricos têm o compromisso de participar do desenvolvimento internacional, com 0,7% do seu PIB (Produto Interno Bruto). Mas esse compromisso não está sendo cumprido. Eu não estou falando somente do Brasil, mas de como a comunidade internacional tem que resolver esses problemas de necessidades básicas da população.

ABr:Logo depois que o presidente Lula discursou na ONU, recentemente, uma revista brasileira publicou, nesse tom que comentávamos há pouco, a seguinte nota: o fato de a ONU destacar a experiência de política social do governo Lula apenas mostra a decadência, a falência das Nações Unidas. O que o sr. pensa desse tipo de crítica?

José Tubino: Para mim, é muito difícil falar sobre isso, porque existem interesses muito grandes para acabar com a ONU. Por outro lado, temos que reconhecer que a ONU tem que ser modificada e modernizada. Eu não acredito que a ONU esteja decadente.

O que está acontecendo é a mesma coisa que eu falei anteriormente. A mídia só está focando coisas ruins. Na última Cúpula do Milênio Mais Cinco, em Nova Iorque, foram aprovadas muitas coisas boas, mas a mídia só pegou as coisas negativas. A ONU está sofrendo com a falta de informação sobre as coisas positivas que as Nações Unidas fazem no mundo, em condições muito difíceis e com pouco apoio financeiro dos próprios países, que são os donos da ONU.

ABr:Com relação aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, há críticas de que eles seriam apenas uma "declaração de boas intenções", sem clareza ou definições claras de como serão atingidos. A FAO percebe essa "falha"?

José Tubino- Os indicadores e o monitoramento de informações são aspectos muito importantes, mas isso não deveria ser uma justificativa para não fazer as coisas. No âmbito da ONU, existem algumas questões que sempre serão alvos de críticas. Nunca haverá clareza suficiente sobre determinados padrões.

É a primeira vez que as Nações Unidas têm metas concretas e quantitativas para, em tal data, fazer tal coisa. Isso é um grande avanço. Mas sempre haverá críticas. Será impossível chegar a um consenso geral.