Cassado, Jefferson diz defender que PTB vá para a oposição

15/09/2005 - 20h08

Marcos Chagas
Repórter da Agência Brasil

Brasília - Um dia após a cassação de seu mandato, o ex-deputado Roberto Jeferson (PTB-RJ), disse, hoje (15), que "nunca mais" se candidatará a nenhum cargo eletivo mesmo tendo recorrido da decisão da Câmara ao Supremo Tribunal Federal (STF). Voltado para o destino político do seu partido, ele cobrou do ministro Walfrido dos Mares Guia que deixe o PTB. "Numa conversa que tivemos, o Walfrido me disse que, no dia em que eu criticasse o presidente Lula, ele deixaria o PTB. Espero, agora, que ele cumpra o prometido", afirmou Jeferson em entrevista coletiva.

O ex-deputado, autor de denúncias de que existiria um pagamento de mesada pelo PT a deputados da base aliada em troca de apoio ao governo federal, disse que vai defender que o partido assuma oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Estamos permitindo que o PSDB e o PFL se assenhorem de um discurso que é nosso. Quem denunciou esse esquema de corrupção fomos nós", disse o ex-deputado.

Roberto Jeferson disse que, hoje, está convencido de que o presidente Lula, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, foram os responsáveis pela tentativa "de plantar no colo do PTB" as primeiras denúncias de corrupção nos Correios surgidas a partir de um vídeo em que o e ex-funcionário da estatal Maurício Marinho falava de um esquema de corrupção na estatal em benefício do PTB e comandado por Jefferson. "Quem me chamou a atenção para isso foi o José Dirceu".

Segundo Jefferson, na véspera da instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios, ele teve "uma conversa dura" com José Dirceu e o ex-ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo. Ainda de acordo com o relato do ex-deputado, ele cobrou de Dirceu as "plantações" das notícias na imprensa, e o ex-ministro lhe respondeu que não tinha nenhum força sobre o ministro da Justiça.

Roberto Jefferson elogiou a decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, de conceder liminar aos deputados citados pela CPI dos Correios para que possam se defender na Corregedoria da Câmara antes que o processo de cassação seja aberto pelo Conselho de Ética da Casa. "Independentmente das pessoas, eu aplaudo a decisão do Jobim, porque fui vítima de um processo fascista no Conselho de Ética. O respeito às medidas legais é um dos pilares da democracia".

Licenciado da presidência do PTB, Jeferson disse que não pretende retornar ao cargo. Segundo ele, o empresário Flávio Martinez continuará à frente do partido até dezembro, quando deverá ser eleito o novo presidente. Quanto aos R$ 4 milhões que disse ter recebido, sem recibo, do PT como parte de um acordo para financiamento de candidaturas do partido nas eleições municipais de 2004, Jefferson disse que está conversando com as pessoas que receberam os recursos. Sua intenção é devolver ao PT o dinheiro "da maneira que a Justiça determinar". A denúncia sobre o suposto repasse de R$ 4 milhões foi uma das razões da cassação de Jefferson, por ele não ter comprovado a existência do dinheiro

Jefferson qualificou como um erro grave do PSDB tentar fazer um acordo para evitar que a CPMI dos Correios investigasse o envolvimento do senador Eduardo Azeredo (MG), presidente nacional do partido, com o empresário Marcos Valério de Souza - acusado por Jefferson de ser intermediário no pagamento de propinas a deputados em troca de apoio ao governo.

Segundo ele, também haveria acordo para que não sejam investigadas possíveis irregularidades do governo passado na administração dos fundos de pensão. "Existe um acordo surdo entre o PSDB e o PT. O PSDB está se acertando para proteger a administração dos fundos de pensão na sua gestão e o seu presidente (Azeredo), que recebeu R$ 12,5 milhões de Marcos Valério", acrescentou o ex-deputado.