Roraima precisa de planejamento para usar terras da União, diz coordenador da CPT

19/04/2005 - 19h29

Juliana Cézar Nunes
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O pacote de medidas de regularização fundiária de Roraima vai exigir melhor planejamento do governo estadual para a utilização das terras concedidas pela União. É o que defende o coordenador da Comissão Pastoral da Terra em Roraima, padre Ralf Albert Weissensting. De acordo com ele, falta um projeto claro do estado sobre como usar a agricultura para o desenvolvimento da região.

"Há uma constante troca de secretários de Agricultura no governo estadual. O governo do estado prioriza o investimento no agronegócio, trazendo agricultores de fora do estado para implantar suas lavouras aqui", afirmou Weissensting. "Em vez de investir na consolidação da agricultura familiar e dar condições aos trabalhadores rurais, o governo do estado investe no fornecimento de calcário e na produção de soja. Achamos essa atitude não responsável", disse ele.

O pacote de medidas federais de regularização fundiária em Roraima foi lançado depois de homologada a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, na semana passada. O governo estadual e os agricultores não concordam com a área destinada aos índios – cerca de 1,7 milhões de hectares. Já o coordenador da CPT acredita que a homologação da Raposa se deu por meio uma solução conciliadora, do ponto de vista fundiário.

"A homologação preservou o maior município e as estradas, além de ter permitido a presença dos arrozeiros até o final da próxima colheita. Foi uma maneira sábia de iniciar a regularização fundiária do estado", afirmou Weissensting. Para ele, o luto decretado pelo governador Ottomar Pinto por causa da homologação da reserva foi uma "atitude ideológica para fomentar as aversões contra o governo federal".

"Lamento muito que isso tenha acontecido. Não percebi aqui clima que justificasse isso", disse o coordenador da CPT. "Temo que as pessoas radicalizem por causa do luto. Até agora não fiquei sabendo de atos violentos, mas eu não posso excluir que isso aconteça."

Antes da promulgação da Constituição de 88, Roraima era território federal, com uma longa história de disputa por terras, inclusive no período da colonização. Mesmo após a transformação da região em estado, a União continuou proprietária da maior parte das terras. Roraima tem hoje 22,3 milhões de hectares. Deste total, a União ainda detém 5,8 milhões de hectares a serem destinados de forma gradativa ao governo estadual.