Rita Ribera foi a primeira mulher da América do Sul a exercer o direito ao voto

08/03/2012 - 8h16

De Monica Yanakiew
Correspondente da EBC na Argentina

Buenos Aires – Aos noventa anos, a brasileira Rita Ribera entrou para a história como a primeira mulher da América do Sul a exercer o direito ao voto. Mas foi em um plebiscito, em julho de 1927, no Uruguai – primeiro país latino-americano a aprovar o voto feminino.

A Constituição de 1917 outorgou às mulheres uruguaias o direito ao sufrágio - mesmo ano em que as mulheres canadenses começaram a votar e três anos antes que as estadunidenses. O voto feminino no Uruguai só foi regulamentado em 1932, e as mulheres votaram na primeira eleição nacional em 1938. Mas, antes disso, o governo tinha convocado um plebiscito na localidade de Cerro Chato, que permitia a participação de "qualquer pessoa”. Rita Ribera, imigrante brasileira, e outras mulheres aproveitaram a oportunidade para fazer valer seus direitos.

Comparada a países vizinhos, a Argentina chegou tarde. O voto feminino, reivindicado desde 1919, só foi aprovado em 1947 – depois do Equador (1929), do Brasil (1932), do Chile (1934), da Bolívia (1938) e da Venezuela (1946). Mas a presidenta da Fundação para o Estudo e a Investigação para a Mulher (Feim), Mabel Bianco, considera que – talvez tão importante como o direito ao voto – tenha sido a aprovação da Lei de Cotas, que, em 2011, completou duas décadas.

“Essa lei nos permitiu aumentar a participação política da mulher argentina”, explicou Mabel, em entrevista à Agência Brasil. A legislação, proposta por parlamentares argentinas e aprovada durante o governo de Carlos Menem, estabelece que as mulheres ocupem, no mínimo, 30% das vagas na Câmara dos Deputados e no Senado. Em termos de participação feminina no Congresso, a Argentina está entre os primeiros países da América Latina, segundo estatísticas apresentadas este mês pela Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres – entidade das Nações Unidas, dirigida pela ex-presidenta do Chile, Michelle Bachelet.

Na Argentina, as mulheres ocupam 96 das 257 cadeiras na Câmara dos Deputados (37,4%) e 28 das 72 vagas no Senado (38,9%). Perdem para a Nicarágua (com 40% de mulheres no Congresso) e empatam com a Costa Rica (38%). Na Bolívia, as mulheres representam 25,4% da Câmara dos Deputados e 47,2% do Senado – mas presidem as duas casas.

O Brasil, segundo as estatísticas da ONU, fica bem atrás: as mulheres representam apenas 8,6% da Câmara dos Deputados (44 deputadas dos 513) e 16% do Senado (26 senadoras dos 81).

Mas, segundo Mabel, apesar de ter tido duas presidentas – a ultima delas, Cristina Kirchner, reeleita em dezembro com 54% dos votos – a participação feminina no gabinete argentino é pequena. Dos 17 ministros, apenas três são mulheres: Nilda Garre (Segurança Nacional), Debora Giorgi (Indústria e Comercio) e Alicia Castro (Desenvolvimento Social).

Em termos de participação feminina no Executivo, Nicarágua, Bolívia, Equador e Venezuela lideram com quase a metade de seus ministérios ocupados por mulheres. O Brasil tem quase um terço (dez dos 37 ministros são mulheres). “Conquistamos o voto, mas a verdade é que, sem uma legislação que estipule cotas, é difícil garantir uma participação política feminina”, disse Bianco. “Agora o que precisamos melhorar, na América Latina, é a consciência das mulheres para exercer a cidadania. Não basta votar e ser eleita. A mulher precisa batalhar pela igualdade em outros setores da sociedade: na Justiça, nas organizações sociais e nos sindicatos, por exemplo.”

A senadora argentina Norma Morandini (indicada à vice nas últimas eleições presidenciais) diz que, há 20 anos, criticou a lei de cotas por achar que abria as portas para mulheres que, muitas vezes, ocupavam cargos não por mérito próprio, mas por serem mulheres ou parentes de políticos. “Mas o tempo provou que eu estava errada. É verdade que muitas mulheres chegam aos cargos políticos graças aos maridos, pais ou irmãos. Mas também é verdade que muitas delas desenvolveram carreiras políticas próprias e muitas outras chegaram a ocupar cargos sem contar com parentes.”

A Argentina é conhecida por mulheres poderosas. A começar por Eva Perón. Segunda mulher do general Juan Domingo Perón (fundador do Partido Justicialista, ou Peronista, e três vezes presidente da Argentina), ela nunca chegou a ocupar um cargo político. Morreu de câncer aos 33 anos de idade. Mas, em sete anos de vida publica, transformou-se em um mito para as mulheres da política argentina e no imaginário internacional.

Foi Evita, como ficou conhecida, que conseguiu a aprovação do voto feminino, em 1947. Nunca foi eleita a um cargo, mas como primeira-dama virou emblema da luta pelos direitos das minorias e exemplo para as mulheres. “Não se pode entender a presença da mulher argentina na política sem falar na liderança de Evita”, diz Elisa Carrio, várias vezes candidata à Presidência argentina.
 

O túmulo de Eva Peron, que morreu em 1952, fica no Cemitério da Recoleta e é ponto turístico de Buenos Aires. A vida dela inspirou novelas, livros, obras de teatro e o musical Evita, dos ingleses Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, transformado em filme, protagonizado por Madonna.

Evita abriu o caminho para a primeira mulher a presidir a Argentina, Isabelita. Dançarina de cabaré e terceira mulher de Perón, ela foi eleita vice só por causa dele. E assumiu o comando do país quando ele morreu, levando a Argentina à bancarrota e ao confronto político. Foi derrotada no golpe de 1976 e continua exilada na Espanha, como um capítulo que as mulheres argentinas querem esquecer.

Quase 30 anos depois, outra mulher, Cristina Kirchner, tornou-se presidenta da Argentina. Foi a primeira mulher eleita e reeleita para o cargo. Como Evita e Isabelita, teve um marido presidente e foi primeira-dama.

Foi deputada e senadora. Era mais conhecida na Argentina que o marido, Néstor Kirchner, governador da longínqua província de Santa Cruz. Quando Néstor foi eleito presidente (no meio de uma crise política) mudou o titulo de primeira-dama para primera-cidadã. Mas segundo Mabel, “na Argentina as fortes figuras femininas têm horror de serem consideradas feministas.”
 

Edição: Andréa Quintiere