Fazendeiros exploram e ameaçam moradores de reserva no Amazonas, denuncia ONG

12/04/2006 - 6h56

Thaís Brianezi
Repórter da Agência Brasil

Manaus - A existência de propriedades particulares dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagassu-Purus, no Amazonas, está impedindo um dos principais objetivos da unidade de conservação: o uso equilibrado de seus recursos naturais pelos moradores.

Foi o que denunciou ontem (11) à Radiobrás Delmo Roncarati, coordenador do subprograma de Produtos Não-Madeireiros do Instituto Piagassus-Purus, organização não-governamental co-gestora da reserva.

"Há mais de um proprietário, mas o principal é a família Melo, que reivindica áreas utilizadas pelos extrativistas para coletar castanha. Eles são obrigados a vender o produto aos fazendeiros a preços bem abaixo do mercado, perpetuando o antigo sistema de aviamento. Quem não concorda é ameaçado de morte. A pressão aumenta entre novembro e abril, na época da colheita", disse Rocarti.

O sistema de aviamento é uma cadeia de endividamento do trabalhador que foi implantada na floresta amazônica no auge da economia da borracha, entre o fim do Século 18 e início do Século 19.

"A castanha é como uma poupança para as famílias, sua fonte monetária. Com esse dinheiro, compram combustível, óleo, roupas", explicou o coordenador de Estudos Econômicos da ONG e professor de Sociologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luís Antônio Nascimento. "Se isso se quebra, elas pressionam os recursos naturais, caçam o peixe-boi (mamífero aquático em risco de extinção) e retiram madeira ilegalmente".

Nascimento revelou que a RDS Piagassu-Purus foi criada pelo governo estadual em 2004, graças à sugestão de um grupo de pesquisadores da Ufam e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que montaram a ONG para fazer a co-gestão da unidade. "Lá é uma área rica do ponto de vista da fauna e da flora", afirmou.

A reserva tem pouco mais de um milhão de hectares, divididos entre os municípios de Beruri, Anori, Tapauá e Coari (todos no Amazonas). "Como não dava para trabalhar em toda a extensão da reserva, estabelecemos que nossa área focal seria metade dela. Lá vivem entre 450 e 500 famílias", explicou Nascimento. Ele estima que na reserva inteira morem 1,5 mil famílias.