Sete jovens cariocas expõem maquete de favela no Fórum Urbano Mundial

15/09/2004 - 16h39

Juliana Andrade
Enviada especial à Barcelona

Barcelona (Espanha) – Com blocos de concreto, tijolos, cimento, tinta, areia e muita criatividade, sete jovens moradores de uma favela localizada no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio de Janeiro, retrataram a realidade do local em que vivem numa exposição montada no Centro de Convenções de Barcelona, onde acontece o Fórum Urbano Mundial. Eles montaram uma maquete que reproduz uma favela carioca. Hoje, o músico Carlinhos Brown, que se apresentará amanhã num concerto para os participantes do fórum, visitou a exposição e convidou os garotos a montarem outra maquete no palco, durante o show.

Os jovens fazem parte do Projeto Morrinho, que tem o objetivo de promover a inclusão social de adolescentes em situação de risco a partir da arte. Além disso, têm a oportunidade de aprender técnicas audiovisuais e documentar o resultado de seu trabalho. Desde que o projeto foi criado, há três anos, eles já participaram de seis exposições. Foram parar em Barcelona a convite do Programa de Assentamentos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU-Habitat), que promove o fórum. E, no ano que vem, levarão a sua arte a Paris (França).

A maquete de favela montada no evento em Barcelona reproduz, em escala menor, outra instalada no Morro da Pereira, no Rio de Janeiro, que começou a ser montada há 7 anos. Assim como muitas favelas cariocas, a reprodução foi crescendo e hoje ocupa uma área de cerca de 300 metros quadrados. Um dos jovens que fazem parte do projeto, Renato Dias, 21 anos, diz que tudo começou como uma brincadeira. Depois de construírem os barracos, ele e seus amigos emprestavam a voz a bonequinhos de miniatura que representavam personagens da vizinhança.

A brincadeira começou a ser levada a sério há três anos, depois que os jovens conheceram o diretor e editor de imagens Fábio Gavião. A idéia inicial de Galvão era apenar registrar a história dos adolescentes num documentário. Mas quando viu de perto o trabalho dos garotos se surpreendeu com a qualidade artística. "Era uma obra de arte que nascia dentro da favela", conta.

"Eles também ficaram impressionados, só que com a minha câmera digital. Aí sugeri que eles mesmos gravassem a brincadeira deles", lembra o diretor, que, naquele momento, teve a idéia de criar um projeto para profissionalizar os garotos na área. Surgiu, então, o Projeto Morrinho. "Se você dá oportunidades a jovens que vivem em situação de risco, eles agarram", afirma o diretor, que é um dos coordenadores da iniciativa.

Com o projeto, a arte dos garotos ganhou mais visibilidade. Renato Dias, por exemplo, já conseguiu um emprego de assistente de direção numa produtora de vídeos. Para ele, a oportunidade representa a chance de seguir uma vida diferente da de muitos jovens moradores de favela, que acabam se envolvendo em crimes ou com drogas. "Se o jovem da comunidade tiver uma ocupação, não vai ter como ir para a esquerda ou a direita, vai sempre seguir aquele caminho dele", observa.

Fábio Gavião espera ampliar o projeto para poder atender mais jovens em situação de risco. "Pode ter certeza que aqui ninguém vai se envolver em nada durante pelo menos dois anos. E se a gente continuar fazendo esse trabalho durante mais dez anos, vão vir mais trinta, quarenta, cinqüenta deles, que vão seguir o mesmo caminho".