Morte de Chico Mendes completa amanhã 14 anos

21/12/2002 - 10h13

Rio Branco, 21/12/2002 (Agência Brasil) - Amanhã, muita gente no Brasil e no exterior, inclusive o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e a senadora Marina Silva (PT-AC), indicada para a pasta do Meio Ambiente, estará reverenciando uma das personalidades mais emblemáticas na defesa da preservação do meio ambiente na região amazônica: o líder seringueiro e ecologista Chico Mendes, assassinado há 14 anos por perseguir esse ideal.

Em conversa esta semana com o governador do Acre, Jorge Vianna, Lula relembrou a data e manifestou, de acordo com Viana, seu sentimento em relação à morte "anunciada" de Chico Mendes, no início da noite de 22 de dezembro de 1988, quando se encontrava no quintal de sua casa, em Xapuri, a cerca de 300 quilômetros de Rio Branco, sem camisa e com uma toalha em torno do pescoço.

Os dois policiais militares, que se encontravam no local, destacados pelo governo acreano para protegê-lo, não puderam fazer nada e o ecologista foi atingido por um tiro de escopeta dado por Darci Alves da Silva, filho de Darli Alves, mandante do crime e dono do seringal Cachoeira, desapropriado pelo governo por intervenção de Chico Mendes, para se transformar uma reserva extrativista.

A morte de ecologista, cujo trabalho teve reconhecimento, entre outros organismos, da Organização das Nações Unidas (ONU) também marcou a história de vida e profissional do juiz que conduziu o julgamento do crime, Adair Longuini, que, respaldado por um júri popular, sentenciou os dois, em 22 de dezembro de 1990, a 19 anos de prisão. Por causa da idade avançada Darli foi posto e liberdade, mas seu filho, Darci, está preso na Penitenciária da Papuda, em Brasília, por medida de segurança, já que ambos tentaram fugir várias vezes da Penitenciária de Rio Branco.

Durante o julgamento, que durou quatro dias, o futuro ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, atuou, gratuitamente, como assistente do promotor Eliseu Buchememeyer. O julgamento dos assassinos de Chico Mendes atraiu para a pequena Xapuri mais de 200 jornalistas brasileiros e estrangeiros, dezenas de ambientalistas, além do próprio Lula, que acompanhado de seu antigo e atual assessor de imprensa, jornalista Ricardo Kotscho, presenciou todo o desenrolar do julgamento, discursando, inclusive, numa escola da cidade, para uma platéia de mais de 700 seringueiros, pedindo mais atenção das autoridades para os problemas ambientais existentes no Brasil e chamando a atenção para o número assustador de trabalhadores rurais assassinados no Acre e em vários outros estados.

Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, a futura ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o governador Jorge Viana, e o juiz Adair Longuini falaram do significado do embate de Chico Mendes contra os depredadores da floresta. Marina Silva avaliou que "há uma conjunção muito interessante" no fato de ela, do criminalista Márcio Thomaz Bastos, do governador acreano, além de Lula, estarem em posição de destaque hoje na política nacional. "Eu acho que os que sonharam antes de nós e que até morreram pelos nossos sonhos, merecem que a gente faça tudo para que eles se tornem realidade", afirmou numa referência aos ideiais Chico Mendes, um dos fundadores do PT no Acre, de quem foi amiga próxima.

De acordo com a senadora, a morte de Chico Mendes, sua luta e seus sonhos têm um significado mais amplo, "pois remonta a muita esperança, a muito desejo de fazer este país dar certo, em cada canto desse país e, claro, no cantinho que Chico Mendes viveu aqui no Acre". Mas, ao mesmo tempo, a senadora está convicta de que sua responsabilidade ganhou uma proporção maior, agora que assumirá o Ministério do Meio Ambiente.
"Estamos vivendo um momento que suscita muitas esperanças e esses desejos de participação de contribuir com o governo talvez seja tudo isso maior do que nossa capacidade de processá-los. Vamos ter que nos esforçar muito para que a sociedade se sinta parte desse processo. E se a gente for capaz de fazer isso no Ministério do Meio Ambiente, da Educação, no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, enfim, em todos os lugares, a gente vai fazer dar certo", disse.

Já o governador Jorge Viana, que coordenou, em 1986, a campanha de Chico Mendes para deputado estadual no Acre, ressaltou na entrevista à Agência Brasil a importância de Chico Mendes nesta nova fase política que o país vivenciará.
"O Brasil já mudou e agora o que é preciso para que as mudanças continuem é que todo mundo participe, que todo mundo ajude. E eu tenho certeza que a melhor maneira de nós lembrarmos os 14 anos sem o Chico Mendes, a morte dele no dia 22, é estarmos certos de que ele está feliz, onde estiver, porque ele está feliz com o nosso sucesso", afirmou, emendando que Chico Mendes "foi um visionário, uma pessoa, quando ninguém no Brasil se preocupava como deveria com a problemática ambiental, ele já conseguia ver que aquilo (a proteção do meio ambiente) estaria na agenda do mundo para sempre".

Jorge Viana lembrou que o que Chico Mendes defendia, repercutia no exterior, mas não no Brasil: "Como ele não era ouvido aqui, ele saia do Brasil, falava lá fora, era ouvido e respeitado. Eu fiquei muito sentido. Chico Mendes foi brutalmente assassinado. Todos nós aqui no
Acre ficamos meio órfãos por temos perdido Chico Mendes. Eu cheguei a trabalhar com ele, ajudei na coordenação da campanha dele em 1986, quando nós achávamos que se ele fosse eleito deputado estadual ele poderia virar autoridade e, com isso, quem sabe, criar barreiras para que não o matassem como fizeram. Foi uma morte anunciada e hoje eu fico feliz de estar num governo tentando pôr em prática muitos dos sonhos de Chico Mendes".

Para o juiz Adair Longuini, atualmente juiz na área cível do Fórum de Rio Branco, que presidiu o julgamento de Chico Mendes aos 35 anos de idade, nove meses depois de se tornar juiz, a condução do caso foi o mais importante de toda sua vida profissional. " Quando eu entrei na
magistratura, o sonho era realmente alcançar a proteção jurisdicional, a distribuição da Justiça da melhor forma possível, que foi sempre o meu ideal. Já no início de minha carreira, me deparei com esse julgamento, julgamento bastante significativo, expressivo, dada à figura de Chico
Mendes, a vítima, e pude tirar uma conclusão muito bonita: que é possível sim, neste país, se fazer justiça, basta querer".

Sobre a atuação do novo ministro da Justiça no julgamento, Márcio Thomaz Bastos, Adair Longuini disse que a participação do advogado criminalista como assistente da promotoria o impressionou muito na época.

"A participação dele no caso Chico Mendes era realmente uma coisa que vinha de seu interior, não era uma significação profissional, mercenária, voltada para ganhar dinheiro. Ele estava ali, um dos maiores criminalistas do país, procurando auxiliar o Ministério Público em atuar ao
lado da acusação, em busca do ideal, que é o de todos nós, que é o de encontrar a Justiça".